#PalavrasApenas: Desapontada, 'baleia azul' pede para humanos voltarem duas gerações e fazerem 'recall' de si mesmos - Coluna do Beck
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#PalavrasApenas: Desapontada, ‘baleia azul’ pede para humanos voltarem duas gerações e fazerem ‘recall’ de si mesmos

Publicado dia 19 de abril de 2017 às 15:29. Última atualização: 19 de abril de 2017 às 16:26. 9 comentários.


Se a imagem é triste, imagina o desafio.. (Foto: Reprodução/Facebook)

Se a imagem é triste, imagina o desafio.. (Foto: Reprodução/Facebook)

A propósito da polêmica da semana, o tal desafio da ‘baleia azul’, lembro-me que na minha época de adolescente o maior DESAFIO era conseguir jogar PAC MAN no Atari 5200 do Juliano (o único amigo que tinha, lá nos finados 1980, o video game que a gente respeitava).

Sim, minha adolescência foi maravilhosa e, embora tenha sofrido o que hoje chamam de bullying  por ser gay (na época eu nem imaginava, mas também tava ‘cagando’ pra isso), vivia brincando, correndo, fazendo gincanas na escola e teatro no palco do Clube Recreativo, tudo lá em Santa Adélia, onde nasci e adolesci.

Atari: pensa numa saudade...

Atari: pensa numa saudade…

Ah, quantas saudades desses dias intensos, pulando de galho em galho nos pomares dos vizinhos, esperando a próxima safra de manga no sítio dos Bellotti (minha mãe me despachava munido de balde e sacolas e, ai de mim, se voltasse pra casa com eles vazios).

Não, amiguinho, não tínhamos o menor sinal de tecnologia. Aliás, quem possuísse um telefone da Telesp vermelho – o objeto de comunicação mais moderno da época – era rei. Também não se tinha todo esse acesso veloz à informação que temos hoje, claro.

Melhor WhatsApp da minha geração: mas quem é que tinha dinheiro pra ter um?

Melhor WhatsApp da minha geração: mas quem é que tinha dinheiro pra ter um?

E a vida corria tão simples, tão maravilhosa, como nas histórias dos livros da série Vaga-Lume, que ficava de prontidão esperando chegar na biblioteca da escola. E ai daquele que pegasse o livro mais novo antes de mim. Aí, sim, tínhamos um desafio perigoso.

Mas antes de seguir com toda essa nostalgia que me acometeu diante da tal polêmica da ‘baleia azul’, só quero dizer que este post não é um manifesto insólito contra a tecnologia. Até porque, se o fizesse, estaria praticando um contra-senso, uma vez  que trabalho e dependo de todas essas novas plataformas digitais para sobreviver.

Um dos meus livros preferidos da inesquecível série Vaga-Lume.

Um dos meus livros preferidos da inesquecível série Vaga-Lume.

O que quero evidenciar aqui é como os valores e as pessoas mudaram. E eu tenho certeza que você, se for egresso da mesma geração (a dos 40 anos), também tem notado toda essa mudança.

Não condeno nem chicoteio, mas tenho observado diuturnamente as aflições e flagelos que advêm da tecnologia pouco domesticada.

Falta-me embasamento psiquiátrico e outras doses de muito aprendizado em matéria humana para decretar que esta geração de adolescentes (qual é mesmo a letra que a define? Y? Z? X? Preguiça de jogar no Google…) é pior, melhor ou mais sofredora que a minha.

O que posso dizer, com total experiência de vida, é o que relatei nos parágrafos mais fofos que dão início a este post: minha adolescência de pés descalços e mamilos ao vento foi MARAVILHOSA. E em nenhum momento tínhamos ou imaginávamos artifícios tecnológicos ou desafios letais que gerassem comoção coletiva.

Além do ‘desafio mais desafiador’ que já relatei lá em cima, o de segurar a ansiedade enquanto aguardava minha vez de jogar PAC MAN no Atari do Juliano, devo confessar que tínhamos, sim, outros embates um tanto quanto perigosos.

Saía enlouquecido pela rua do cemitério, em Santa Adélia, com essa magrela...

Saía enlouquecido pela rua do cemitério, em Santa Adélia, com essa magrela…

Um deles era dirigir a Mobilete do Atanael, o único amigo que possuía essa maravilha da engenharia adolescente da minha época. E dá-lhe mais fila. Ou seja: era fila pro Atari, fila pra Mobilete e muuuuita fila pra sopa da Dona Dilurdes na hora do recreio (pensa numa comida deliciosa, cujo cheiro invadia as salas de aula e fazia o estômago cheio de giárdia roncar).

Sim, amiguinho, tô aqui rebobinando a fita da minha adolê justamente para lhe sugerir que não abandone, mas que troque umas três vezes por semana, no mínimo, toda a tecnologia disponível – que também é maravilhosa – por brincadeiras saudáveis, por pés na grama, canelas mais raladas nos jogos de futebol, bocas meladas de mangas apanhadas no pomar…

Manga no pomar: não precisa de wi-fi pra chupar, viu?

Manga no pomar: não precisa de wi-fi pra chupar, viu?

Quanto ao ‘desafio da baleia’, se você conseguir, abandone esta MERDA AGORA. Caso não consiga, porque seu colega vai espalhar que você é um covarde e não serve para o grupo de idiotas que ele criou nas redes sociais, conte aos seus pais.

Não tenha vergonha. Conte tudo. Grite.  Faça um recall de bom senso (textão no Facebook também vale), mas entregue o ‘valentão’ que vive camuflado atrás de um smartphone dando ordens medievais a adolescentes que só precisam ser modernos, mas não burros.

No final, amiguinho, a ‘baleia azul’ é só um mamífero lindo que você precisa apreciar no mar. E para isso, é importante que se mantenha vivo e conectado, sem dores e cicatrizes. Ser escravo de sua própria geração é outra coisa. Agora vai, tira o tênis e pise na grama…

É dura a vida do trapezista assustado com tanta carência…

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9 Comentários

  1. Milena

    Amigo!!!! Revivi a minha época no seu texto!!! A fila da mobilete, pegar manga até não conseguir carregar e coisas mais….
    Realmente esses adolescentes têm que se libertar e viver a verdadeira vida! Bjus❤️❤️❤️❤️

  2. Giovana

    Amei!

  3. Anna Beatriz Fleury

    Migo como vc escreve bem! Eu AMO seus posts. E esse foi dos mais inspirados. Vou repostar. Beijos! ❤️

  4. Cris

    Seu texto é perfeito!!
    Parabéns, vc como profissional sabe dizer o que muitos querem e não conseguem com as palavras certas rs
    Muitas crianças e adolescentes nunca subiram num pé de frutas
    Não sabem o que é correr, brincar, ser amigo dos vizinhos e tantas outras coisas boas que fizeram parte da nossa infância e adolescência.
    Essa sua idéia de saírem para brincar é ótima,
    Beijos

  5. Gigliola

    Enquanto lia seu post, rebobinei a fita cassete da minha vida, e que ontem levei para minha sessão de psicoterapia, coincidentemente pelo mesmo motivo que levou você a escrever este lindo texto. Ando tão perplexa com a direção que caminha a juventude de hoje, que a cada dia quero viver uma vida real. A vida virtual está se tornando muito pesada, as pessoas
    Deixam ser influenciadas pela vida virtual do outro,
    exigem muito de si, tem q ser feliz o tempo todo, magra para sempre, vegana, vegetariana, celíaca, e claro vc tem que ter intolerância a lactose e tem q ser o que não é! Vamos brincar…. brincar de pique, queimada, e não esquecer que rola “paqueirar” brincando de salada mista!!
    E se não sabe o que é paqueirar e salada mista joga no Google, informação nunca é demais kkkk
    Obrigada por deixar minha vida virtual mais leve e divertida!!

  6. Demais esse texto!!!! Lembro das gincanas e vocês arrasavam nas provas!! Romeu e Julieta foi inesquecível!!!!! <3
    Infelizmente a geração atual não sabe o que é "curtir a vida".

  7. Ângela Lopes

    Você disse tudoooo. Como é bom ler o q vc escreve. A gente se identifica e fica feliz em saber qvc nos representa. Sou fã……

  8. Roger celini

    Amor e relações mais simples ,só isso já bastava !parabens pelo texto .

  9. Rosangela

    Ameiiiiiiii!!!!! Palavras…nostalgia…a beleza de uma vida que mesmo aos trancos e barrancos…os desafios…conflitos…era só felicidade! Uma felicidade pura. Paulo adorei❤️

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