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#ParaSempreLembrar: Em depoimento no Senac, a sobrevivente do Holocausto Nanette Konig é taxativa: “Jamais perdoaria um nazista!”

Publicado dia 18 de agosto de 2015 às 12:05. Última atualização: 18 de agosto de 2015 às 14:13. 1 comentário.


No Auditório do Senac, Nanette relembra amizade com Anne Frank e crueldades vividas durante a Segunda Guerra. (Fotos: Beck)

No Auditório do Senac, Nanette relembra amizade com Anne Frank e crueldades vividas durante a Segunda Guerra. (Fotos: Beck)

Não é todo dia que temos a oportunidade de ouvir e conversar com uma pessoa que sobreviveu aos horrores do Holocausto – um dos piores capítulos da Segunda Guerra Mundial.

Agora imagina ter essa oportunidade e a pessoa em questão ainda ter sido contemporânea e amiga de escola de Anne Frank, a adolescente alemã que se tornou símbolo da Segunda Guerra ao relatar em seu diário detalhes do tempo em que permaneceu escondida das tropas nazistas.

Pode falar: é de arrepiar, não é? Pois foi bem assim que eu e a plateia que fomos ouvir Nanette Konig, na tarde de segunda (17), no Auditório do Senac Rio Preto, ficamos diante da holandesa de 86 anos, sobrevivente do campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha de Hitler.

A idade avançada, os cabelos nevados e o olhar distante – às vezes perdido no tempo – até conseguem fragilizar quem vê Nanette pela primeira vez. Mas a judia que diz ter sido salva graças à sua “indiferença” diante da arma de um oficial nazista se enche de energia ao começar seu depoimento.

O marido John Konig ajuda Nanette antes da palestra: vida no Brasil ajudou a amenizar os traumas do casal.

O marido John Konig auxilia Nanette antes da palestra: vida no Brasil ajudou a amenizar os traumas do casal.

E o público que lota o Auditório do Senac, composto majoritariamente por adolescentes acompanhados de seus professores de História, embarca numa viagem ao passado muito pouco confortável. Quem já leu livros ou viu filmes sobre as crueldades praticadas e desenvolvidas durante a Segunda Guerra consegue fazer a viagem, digamos, com menos terror.

Mas a maioria, visivelmente muda, me faz crer que os relatos de Nanette soam como obra de ficção. E é justamente por conta de rostos tão incrédulos que a holandesa pede, inúmeras vezes, que a história do Holocausto seja sempre repetida e lembrada. “Não podemos jamais esquecer tudo isso”, diz com voz trêmula, quase que implorando para que os jovens ali presentes ecoem suas palavras.

Enquanto segue rebobinando a fita da memória, as lembranças de Nanette são ilustradas por dois tipos de imagens: as que aparecem no telão, como fotos e documentos da época em que ela e a família foram deportadas para um campo de triagem e depois para Bergen-Belsen; e as que automaticamente se formam na mente de quem a ouve. E estas, caro leitor, não têm descrição que as torne suficientemente reais.

“O ódio aos judeus não foi algo criado por Hitler. O anti-semitismo começou bem lá atrás, quando Cristo foi crucificado. Desde então, nossa raça vem sofrendo perseguições de toda espécie e crueldade”, pontua Nanette para concluir em seguida: “Hitler queria criar uma raça ariana, mas até hoje nunca entendi que raça é essa”.

Nanette sobre Anne: "Até hoje não sei porque ela morreu e eu sobrevivi".

Nanette sobre Anne: “Até hoje não sei porque ela morreu e eu sobrevivi”.

Ao relembrar o curto período em que conviveu com Anne Frank (“Fomos colegas de sala no Liceu Israelita, em Amsterdã, em 1942”), a holandesa faz questão de encarar tudo como uma “coincidência”. “Poderia ter sido outra pessoa, outra escola. Mas foi Anne. E desde que a vi pela primeira vez ficou evidente o quanto ela gostava de conversar e escrever. Não desgrudava do seu diário”.

O fator “coincidência” tão destacado por Nanette, entretanto, ganha roupagem mais emocional quando ela mesma se questiona: “Só não entendi porque Anne morreu e eu sobrevivi”. Pausa para um copo de água. Nanette e Anne se viram pela última vez justamente no campo de Bergen-Belsen, de onde só a primeira sairia viva.

“Anne já apresentava os sintomas do tifo (doença bacteriana que viria a matá-la no final de 1944) quando a vi em Bergen-Belsen. Estava magra e muito abatida. Eu mesma pesava pouco mais do que 30 quilos”, relembra, provocando novos arrepios na plateia.

Nanette também conta que o triste reencontro foi importante para saber que Anne guardara seu diário, bem como para ouvir da própria amiga sobre o período em que ela e a família passaram escondidas em um sótão na periferia de Amsterdã.

A infeliz experiência de Anne, concorda e relembra Nanette, daria vida ao “Diário de Anne Frank”, talvez a  obra editorial mais difundida e lida em todo o mundo. “Graças aos seus relatos, milhões de pessoas têm até hoje acesso às verdades sobre os horrores cometidos na Segunda Guerra”.

Anne Frank: diário da adolescente alemã se tornaria a maior obra de divulgação dos horrores perpetrados por Hitler. (Foto: Reprodução)

Anne Frank: diário da adolescente alemã se tornaria a maior obra de divulgação dos horrores perpetrados por Hitler. (Foto: Reprodução)

Depois de ser libertada pela tropas inglesas, em 1945, Nanette levou mais de um ano para conseguir ingerir alimentos. “Um soldado inglês, desolado com a situação dos judeus esquálidos e semimortos à sua frente, me deu uma lata de leite condensado. Quando fui tentar comer, senti um gosto amargo e vomitei”. Nanette levou três anos para recuperar a saúde.

A liberdade, todavia, não se configurou uma realidade salvadora. Segundo Nanette, os judeus que sobreviveram não tinham mais nada. “Nossas casas, famílias, empregos, amigos… tudo e todos tinham desaparecido. A morte, para muitos, teria soado mais libertadora do que a vitória dos Aliados”.

De Bergen-Belsen, aos incompletos 16 anos, Nanette foi viver com uma tia em Londres, onde conheceu seu marido, o húngaro John Konig, que a trouxe para viver no Brasil. Aqui, há mais de 50 anos, ela conta que não precisou de ajuda psicológica para se livrar dos traumas, diferentemente de milhares de judeus que sentiram as mesmas dores produzidas pela Guerra.

“Tive filhos, cuidei deles e depois fui estudar. Formei-me em Economia como desejavam meus pais. E sigo fazendo palestras como forma de me ajudar e ajudar os outros que sucumbiram sob o regime doentio de Hitler”, enfatiza.

"Perdoar um nazista? Jamais", enfatizou a sobrevivente do Holocausto.

“Perdoar um nazista? Jamais”, enfatizou a sobrevivente do Holocausto.

Antes de terminar o encontro, Nanette responde a um jovem que lhe pergunta: “A senhora perdoaria um oficial nazista caso vivo estivesse e com ele se encontrasse?” Resoluta e enérgica, ela vai na jugular: “Jamais o faria”. Resposta similar é dada por Nanette quando lhe pergunto: “A vivência em meio a tantas crueldades teria tornado a senhora favorável à criação de um Estado Palestino, bem como à paz entre judeus e árabes?”

Com o mesmo olhar resoluto e a voz embargada, ela finaliza: “Não sou a favor da construção de um Estado Palestino. Eles (os palestinos) já deram sinais de que são inimigos dos israelenses. Bombardeiam Israel às escuras!” Cumprimento Nanette com um “Shalom” e ela me faz um pedido: “Divulgue tudo, sempre!”

É dura a vida do trapezista emocionado…

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1 Comentário

  1. Julia Paglione de Oliveira

    A palestra foi emocionante, nos faz pensar como nossos problemas são pequenos, até onde a maldade humana pode chegar e no nosso poder de superação. Beck, se fosse possível explicar o sentimento de quem assistiu a palestra seria da maneira que você o fez. Parabéns.

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